- Bacana demais conhecer vocês da UGANGA. Fomos muito bem informados sobre vocês pela MS Metal Agency Brasil. Então fica aqui os nossos parabéns pela jornada. Como vão as coisas? O que vocês têm feito ultimamente?
Igor Wallace: Salve! Primeiramente, muito obrigado pelo espaço pra termos esse papo e falar um pouco dos nossos corres mais recentes. O que tá rolando é que o Uganga não para, e o ritmo não vai diminuir tão cedo. Atualmente estamos no meio da turnê de divulgação do nosso oitavo álbum, "Ganeshu", lançado em maio do ano passado de forma independente e que felizmente tem sido muito bem recebido pelo público e crítica. Inclusive, pra quem é apaixonado por música física assim como eu, o CD já está em produção e vai ser disponibilizado dentro de algumas semanas nos nossos shows, no site da Incêndio Shop (que cuida do nosso merch), e pelos selos parceiros espalhados pelo Brasil. O encarte tá lindão, trampo do nosso mano Artur da Dead Mouse Design. Também estamos trabalhando um documentário que trata da história recente da banda desde o início desse último ciclo. A primeira das quatro partes de "Ganeshu: 3 Décadas, 4 Elementos" já está disponível no nosso canal no Youtube. A MS Metal Agency, que você mencionou, é uma parceria que começou há pouco tempo mas que tem sido um apoio importantíssimo pra conseguirmos dar sequência aos nossos planejamentos. É uma aliança promissora, e berço de muito do que está por vir num futuro próximo.
- Conheci alguns álbuns de vocês, e confesso que amei o último. Este formato está nos planos novamente?
Manu Joker: Legal que gostou do trampo novo mano. O Uganga tem uma sonoridade específica e características que se repetem no decorrer dos álbuns, essa essência estará no próximo trabalho com toda certeza. Somos pesados, cantamos em português, temos groove e fundimos nossas raízes punk e metal a estilos um pouco fora do radar desse público. Já mesmo dentro do espectro dos sons pesados e extremos, esse leque de influências da banda é amplo, tem thrash metal, hardcore punk, doom, crust, black e death metal, heavy tradicional… Muita coisa nos influencia dentro da música pesada. Além disso estilos como o dub, reggae, drums & bass, rap, pós punk e até coisas da mpb se somam a essa receita. Tudo precisa ser dosado pra não perder a identidade, em especial numa banda que passou por mudanças na formação. Pensando com uma abordagem “gastronômica” creio que com mais de três décadas a gente aprendeu a dosar cada elemento pro prato final não desandar. É um mexidão bem temperado (risos). Isso vai se repetir no próximo álbum, porém estamos sempre olhando pra frente.
- A letra inusitada de “Tem Fogo!” ficou excelente. De quem partiu a ideia para registrar essa música? Parabéns pelo resultado...
Manu Joker: “Tem Fogo!” foi uma das primeiras músicas que compusemos pro álbum e surgiu de uma maneira um pouco diferente do nosso método, ao menos até aqui. O Juninho gravou uma demo com toda a levada de bateria e o resto foi composto na sequência abraçando esse groove que ele criou e mudando alguns poucos detalhes. Eu escrevi a letra que trata dos incêndios criminosos que assolaram o país no ano de 2024. Vimos isso muito de perto cara, tanto aqui no cerrado quanto cruzando o Brasil com a banda na “Libre Tour”. Um país em chamas, você se lembra com certeza.
Juninho Silva: Mano, “Tem Fogo!” foi muito especial pra mim porque foi a primeira vez que eu cheguei com uma demo pronta, puxando a composição desde o começo. Depois a galera foi colocando os outros instrumentos por cima, mas a base já tava ali. A música nasceu da batera. Eu curto demais essa porque ela veio com uma energia muito verdadeira, bem crua. Quando o Manu trouxe a letra falando dos incêndios que a gente viu de perto na estrada, encaixou perfeito.
- “Exu Não Passa Pano” é autoral e bem madura em toda a sua estrutura. Como vocês a avaliam depois de tempos do seu lançamento?
Juninho Silva: “Exu Não Passa Pano” é bem direta, sem firula, pancada na cara. Tem essa pegada mais crua, mais punk, mas ao mesmo tempo vem com aquele peso e groove que é a nossa cara. E ao vivo ela é absurda. A resposta da galera é sinistra, é Uganga puro, sem filtro e sem freio.
Manu Joker: Eu a vejo como uma música irmã de “Tem Fogo!”, ambas tem uma construção parecida, tempo de duração similar e elementos que dialogam. “Exu” porém tem realmente uma vibe mais punk, ela é bem “rua” mesmo e tem mais elementos de rap também. Ambas estão presentes no set list atual e são Uganga puro.
- Vocês já definiram a possibilidade de abraçar o inglês em passagens nas letras? Acho que vocês se dariam melhor no mercado internacional, desta forma, não?
Manu Joker: Eu venho pensando nisso, acrescentar umas partes em inglês ou até espanhol em alguns sons. Isso com certeza ajudará na divulgação da nossa música, mas seria algo bem pensado e específico. Será um cara do Brasil dando parte do recado em outra língua, nada de tentar emular sotaques etc… Imagina uma banda polonesa tentando pagar de mineira por exemplo? Nada a ver (risos). Fazer uma transição total pro inglês não é um plano, eu penso que a banda perderia muito da sua identidade e da força das letras se optasse por algo assim. Nós não estamos interessados em seguir tendências ou fazer o que o mercado pede, isso definitivamente nunca foi nosso norte. Esse “pedido” do mercado inclusive muitas vezes já chega velho na minha opinião. Acredito que é uma armadilha onde várias bandas são pegas, a gana por se vender a qualquer custo engole a identidade e você vira só mais um na multidão. Ou se diferencia pelo erro. Já fizemos coisas em inglês e espanhol e boto fé que faremos de novo, inclusive no próximo álbum. Mas como um lance pontual, sempre dentro do nosso estilo de passar uma ideia e sem a preocupação de seguir cartilha.
- Como funciona o trabalho de produção da banda quando está em estúdio? Vocês já estão trabalhando em algo novo neste sentido?
Manu Joker: Desde o início eu organizo essa parte. Com o tempo fui desenvolvendo uma metodologia que não abre mão do lado intuitivo e democrático mas ajuda a organizar as coisas. Veja bem, não somos uma banda que faz muita grana, somos independentes e só na brisa não se chega a lugar nenhum. Ideias soltas não são músicas, são ideias soltas. Já vi banda desperdiçar tempo e dinheiro nesse processo fazendo as coisas ou com ansiedade ou preguiça ou ego. Ou tudo junto (risos). A partir do “Opressor”(2014) comecei a dividir a produção musical com o Gustavo Vazquez (Rocklab Studio - GO) e vamos novamente repetir essa parceria no próximo play. O único álbum que não trabalhamos juntos desde 2013 foi o “Libre!”(2022). Basicamente eu reúno as ideias de todos, demos, riffs soltos, solfejos, seja o que for. Aí organizo esse material e depois trabalhamos os 4 em estúdio, música por música dando a dedicação necessária a todas as faixas. Com essa parte pronta, fruto da junção dessas várias ideias, eu vou pras letras. Aí é um processo mais de solitude que fica 100% comigo, foi assim em todos os álbuns salvo algumas colaborações aqui e ali. Na sequência vem a fase de matutar as composições nos ensaios pois gostamos de chegar pra gravar com o material pronto pra ir pros palcos, com a energia do show e não só executar as músicas emendando partes. Isso traz urgência pro álbum, inclusive “Ganeshu” teve sua base instrumental gravada ao vivo com uma voz guia. Quando entramos no estúdio pra gravar o Gustavo assume o processo, trabalha os timbres, cuida da captação e da mix e master e eu acompanho as gravações mais focado na parte vocal. A gente vai trocando ideias, trabalhando as participações de determinadas pessoas, samplers, vinhetas e chegamos num consenso sobre a mix. Com esse consenso alcançado toda a banda escuta o material finalizado e aí colhemos as percepções individuais de cada um organizando isso numa única posição final entre os 5. Aí o trabalho está realmente finalizado! Parece trabalhoso mas não é, só requer prática e dedicação. Sobre a segunda pergunta a resposta é sim, já estamos na pré do novo álbum. Será o primeiro com Vinícius e Igor e o material está soando forte.
Vinícius Luz: O processo de composição e gravação de demos tem sido uma prática diária minha. Todos os dias eu tento criar algo novo, buscando capturar a essência do Uganga, estudando os álbuns antigos e juntando algumas referências particulares minhas que, penso, se encaixaram bem no som da banda. Nomes como Lamb of God, Gojira e Sepultura, muito groove e thrash metal, além referências fora desse nicho e que envolvem psicodelia, ambiência e música brasileira me influenciam. A diversidade e a mistura de gêneros musicais é uma característica dessa banda e isso dialoga com minha visão particular de músico, estou muito satisfeito por trabalhar com o Uganga. É uma banda que entende a necessidade de se ouvir outro tipo de música fora do metal e complementar seu estilo. Não somos só uma banda de metal ou hardcore. Por enquanto, tive a oportunidade de trabalhar apenas com o Manu em duas faixas, e já sentimos uma conexão musical forte para a produção desse novo trabalho. Esta será a minha primeira gravação em um álbum do estilo e tenho certeza de que o resultado será promissor.
- “A Profecia” foi uma ótima surpresa. Vocês concordam que ela pode vir a se tornar uma música obrigatória nos shows da banda?
Manu Joker: “A Profecia” é uma música muito potente e foi sim pensada para abrir o álbum, assim como nossas apresentações ao vivo. Ela vindo após a intro “Igarapés” é um começo poderoso. Trabalhei a demo desse som com meu amigo Paulo Bigfoot, guitarrista do Delinquentes (Belém - PA) e foi a primeira música a ser composta pro “Ganeshu”, ainda na fase de mudanças na formação. Crossover mineiro puro e solar.
Vinícius Luz: Não tem como falar de "A Profecia" sem falar de "Igarapés", essa faixa cria uma atmosfera intensa pro início do álbum e dos shows, principalmente por conta das sirenes de navio, isso chama bem a atenção da galera. Enquanto está tocando a intro é o momento que a banda entra no palco se conectando espiritualmente com o ambiente e com si mesma pra logo em seguida começar a porrada. Algo interessante sobre essas duas faixas é a relação que o Manu fez por meio da letra logo no início da música: "Estrada são rios você é a ilha". Esse é um balde de água fria na cara pra acordar, não pra desanimar (risos).
- Eu também gostei bastante da faixa “Ganeshu”, mas ela se difere bastante das demais. Foi algo intencional ela ter esta estrutura tão própria?
Manu Joker: Essa começou com o riff inicial, composto pelo Jean (Pagani, guitarrista no álbum). Achei um puta riff, me lembrou o excelente Refused, e começamos a pensar no som a partir dele como um fio condutor. O louco é que o Jean nunca tinha ouvido Refused na vida (risos). É um som mais lento, com uma variação rítmica marcante na cozinha, elementos de música nordestina, black metal, vocais mais contidos e com uma carga melódica mais acentuada. Gosto muito desse som.
Juninho Silva: “Ganeshu” é aquela faixa que a gente sabia que ia soar diferente, mas foi tudo muito natural. Eu curti demais porque abriu espaço pra gente experimentar mais na dinâmica. Na batera eu trabalhei muito essa variação rítmica na cozinha, segurando mais em alguns momentos e depois deixando mais pesada. Ela é mais cadenciada, mas tem uma tensão constante. No fim, virou uma das mais únicas do álbum, com uma identidade muito forte. É diferente, mas ainda é 100% a nossa essência.
- 2026 mal começou e já está rolando por aí. Quais os planos da UGANGA para este ano vigente?
Igor Wallace: 2026 começou fervendo, fizemos os primeiros shows do ano em janeiro e já temos alguns outros já divulgados pros próximos meses, incluindo um festival ao lado do grande Krisiun e dos amigos do Mystifier aqui em Minas Gerais. Temos também alguns no interior de São Paulo e vários outros na agulha que logo geral vai ficar sabendo. Um dos nossos planos é expandir essa tour pra regiões, estados e países que não visitamos há algum tempo e, quem sabe, lugares novos. Estamos ansiosos pra levar nosso show de volta pro Norte e Nordeste, por exemplo, o que não acontece desde 2018. É um ano pra dar continuidade no que começamos em 2025, a "Ganeshu Tour", terminar os próximos capítulos do documentário, tem o lançamento físico, e por aí vai. O curso segue, muitas coisas estão por vir incluindo aí um novo trabalho. Já estamos cozinhando algo com a nova formação mas é segredo, por enquanto (risos).
- Parabéns novamente pelo trabalho de vocês, caras. Existiu algum assunto importante que não foi citado aqui?
Manu Joker: Acho que falamos o bastante (risos). Agradecemos pelo espaço e reforço aqui o convite pra geral ouvir “Ganeshu”, de preferência ao menos uma vez na ordem, pois isso faz muita diferença pra percepção da obra. Vejam também a primeira parte do documentário “Ganeshu: 3 Décadas, 4 Elementos” que já está disponível no nosso canal do YouTube e trata da nossa viagem à Amazônia Paraense ao lado das bandas Violator, Warshipper e Social Chaos. Foi uma doidera e a segunda parte do doc sai em breve. Nos vemos por aí.



