
- Bacana demais conhecer vocês da ORGANOCLORADOS. Fomos
muito bem informados sobre vocês pela MS Metal Agency Brasil. Então fica aqui
os nossos parabéns pela jornada. Como vão as coisas? O que vocês têm feito
ultimamente?
Que ótimo! Fico lisonjeado por suas palavras, obrigado. Aqui
tudo em ordem, muito trabalho, principalmente para promover e divulgar nosso
novo álbum através de diversas ações que idealizamos e corremos atrás para
realizar. E já estamos planejando coisas para o futuro próximo.
- Conheci alguns álbuns de vocês, e confesso que amei o
último. Este formato está nos planos novamente?
Você fez algo que realmente recomendamos que é conhecer
nossa discografia até chegar ao “Dreams and Falls”. Muito legal saber que
gostou. Se o formato que você se refere é o cantado em inglês, sinceramente
ainda não sabemos. Depende muito de algumas condições, como por exemplo ter
músicas prontas, disponibilidade de recursos para custear o projeto e termos
uma avaliação final dos resultados alcançados por esse álbum.
- A letra inusitada de “Horses on the Streets” ficou
excelente. De quem partiu a ideia para registrar essa música? Parabéns pelo
resultado...
Eu nunca compreendi totalmente como essa letra veio até mim.
Comecei a tocar os acordes na guitarra durante um ensaio, no desejo de fazer
algo ao mesmo tempo dançante, sensual e psicodélico. Então as palavras
começaram a fluir na minha mente, tudo em inglês, do início ao fim. As estrofes
estavam em estado bruto, mas tocávamos de vez em quando nos ensaios, aprimorando
os arranjos instrumentais e ela ficou guardada como uma reserva. Isso foi há
vários anos.
Quando surgiu o plano de gravar músicas em inglês e
começamos a selecionar quais seriam as escolhidas para a pré-produção e depois
entrar em estúdio para gravar, “Horses on the Streets” foi uma das primeiras a
ser lembrada por Joir (baterista). Todos aprovaram e eu fui buscar a letra para
melhorar alguns pontos. Para a revisão final, contei com a importante ajuda do
amigo e professor Matthew Carmo. Em verdade talvez seja a letra mais inusitada
e psicodélica que já escrevi e somente depois de estudá-la algumas vezes é que
comecei a perceber algum sentido nos seus versos. Eu a interpreto como uma fuga
mental, uma busca pela liberdade, ainda que através da imaginação.
- “Insecurity” é autoral e bem madura em toda a sua
estrutura. Como vocês a avaliam depois de tempos do seu lançamento?
Sim, autoral como todas do álbum. Foi a faixa escolhida para
ser lançada como single de aquecimento mais ou menos um mês antes do lançamento
do álbum, fechando a escalada. O interessante dessa música é que até pouco
tempo antes de decidirmos gravar em inglês ela estava esquecida e incompleta,
com uma letra escrita em português e faltando várias partes para concluir o
sentido. André (baixo) insistia que a canção precisava de uma parte a mais
daquela já tinha sido composta por ele e Roger (teclado). Como o refrão
principal estava bem definido e não saía da minha cabeça, um dia resolvi
traduzir e experimentar cantar em inglês. Essa inversão na lógica foi
exatamente o que precisava para destravar a composição, pois como num passe de
mágica a coisa fluiu tanto que o restante que faltava veio quase que
instantaneamente, com os acordes, melodia, letra etc. tudo ao mesmo tempo.
Levei ao conhecimento de todos num ensaio e a elaboração foi
tomando uma forma cada vez mais detalhada, em que implementamos várias
características da nossa maneira de tocar. Tudo foi tão natural que enquanto a
gente ensaiava sem saber ainda como a música deveria terminar, eu criei o solo
final de guitarra de uma vez só. A melodia foi saindo da minha mente
diretamente para minhas mãos, sem pensar em nada, apenas sentindo a energia
percorrendo meu corpo. Olhando para trás, posso afirmar que foi um dos
processos mais fascinantes de construção de uma música no qual já nos
envolvemos. Acho que esse amadurecimento que você comentou tem a ver com o
próprio amadurecimento da banda, inclusive também na fase de gravação em
estúdio.
- Vocês já definiram a possibilidade de abraçar o latim em
passagens nas letras? Acho que vocês se dariam melhor no mercado internacional,
desta forma, não?
Essa pergunta revela um novo ponto de vista e ao mesmo tempo
vou levar como uma sugestão de pesquisa. Confesso que nunca pensamos nessa possibilidade
e me parece que bandas de heavy metal, power metal e metal gótico usam
passagens ou frases em latim nas letras. Creio que pelo fato de ser uma língua
antiga e histórica, o latim seja capaz de acrescentar algo de solene, místico, até
mesmo religioso. Vamos colocar essa possibilidade no radar e estudar melhor
esse lance do mercado internacional. Talvez o latim tenha um efeito lírico
interessante para a harmonização musical, o que me agrada. Desde que faça algum
sentido na letra, sem forçar a barra, e aprenda a cantar com a pronúncia
correta, não vejo problema e gosto desse tipo de experiência.
- Como funciona o trabalho de produção da banda quando está
em estúdio? Vocês já estão trabalhando em algo novo neste sentido?
Tudo começa com a fase de pré-produção e que não é algo
assim tão organizado e rígido porque gostamos de uma certa dose aleatoriedade e
fluidez natural para que as músicas amadureçam sem pressa. Temos um acervo
considerável e geralmente são cerca de 20 ou 25 músicas candidatas que vamos
ensaiando e aprimorando os arranjos e letras até eleger aquelas que levaremos
para as gravações. Não temos recursos suficientes para custear longas sessões
de estúdio e gravar versões brutas como teste. Então, o jeito sempre foi
compensar com muito ensaio para chegar ao estúdio com a máxima clareza do que
queríamos realizar e da concepção de cada música.
No estúdio, começamos pelas guias de bases harmônicas e voz,
para definir qual o andamento de cada canção, uma vez que temos por princípio
sempre gravar no metrônomo. Aliás, esse é um capítulo à parte que exige uma
preparação prévia do baterista que pratica individualmente e assim não estranha
a sistemática quando chega a hora de gravar. Logo em seguida, trabalhamos com a
base rítmica, notadamente a bateria e, a depender dos arranjos, também os
acréscimos de percussão. Daí em diante, gravamos as diversas sessões
instrumentais, tantas vezes quanto forem necessárias para esgotando todas as
possibilidades e extrair o máximo possível da composição. Muita coisa surge na
hora, no próprio ambiente do estúdio, e aí entra a importância de manter uma
porta aberta à percepção, sem fechar questão em tudo. Com as gravações dos
instrumentos praticamente concluídas, vem um trabalho nos arranjos vocais em que
comecei a me interessar mais e a aprender no “Saudade da Razão” (2022) e acabou
sendo aprimorado ainda mais neste álbum “Dreams and Falls”.
Espero que você compreenda que não posso revelar aqui os
detalhes das estratégias e técnicas que utilizamos em estúdio para chegar ao
resultado sonoro final, particularmente nas guitarras e violões.
Por fim, tem a importantíssima etapa de edição e mixagem, na
qual participamos ativamente, interferindo com sugestões e ideias. Desde o
primeiro álbum, temos essa preferência por não deixar tudo por conta apenas da
equipe técnica do estúdio. Gostamos de ter certo controle do processo de
formatação porque nossa estética e identidade musical depende muito disso.
Temos uma característica bastante forte que é trabalhar nuances, detalhes,
variáveis, sutilezas que só nós mesmos podemos identificar e arrumar conforme o
que idealizamos para cada composição. Para que isso aconteça, temos de ser
incluídos nesse processo.
- “Just
for Today” foi uma ótima surpresa.
Vocês concordam que ela pode vir a se tornar uma música obrigatória nos shows
da banda?
Concordamos
plenamente! Por causa desse potencial que você assinalou, “Just for Today” foi
escolhida e lançada como single ainda em 2024, como parte da preparação do
caminho até o álbum. É a mais nova do grupo de faixas que estão no “Dreams and
Falls” e ficou pronta pouco antes de tomarmos a decisão de gravar um álbum em
inglês. Também é uma daquelas originalmente compostas em inglês e sem versão em
português. A canção é arrebatadora, intensa, e acho que se destaca por ter uma
pegada bluesística numa modalidade incomum de compasso. Fato interessante é
que, inspirado por uma passagem do livro Admirável Mundo Novo, adaptei na letra
dois versos da peça Antonio e Cleopatra de William Shakespeare. Após o
resultado final, hoje eu a considero uma das músicas mais elegantes da
Organoclorados.
- Eu também
gostei bastante da faixa “Strange Crossroads”, mas ela se difere bastante
das demais. Foi algo intencional ela ter esta estrutura tão própria?
É fascinante essa sacada. A arte reafirma sua natureza
quando sua expressão dialoga com a percepção e o conhecimento acumulado de quem
a ela é exposto. Diversas interpretações e leituras são possíveis e é assim que
se estabelece a melhor conexão entre o artista e seu público.
Essa faixa é uma versão de “Entroncamento Inusitado” que
está em nosso álbum anterior “Saudade da Razão” (2022) e também já ganhou uma
versão em espanhol lançada como single em 2020 sob o nome “Cruce Inusitado”. Ou
seja, é uma canção autoral de uma banda brasileira de rock independente que foi
gravada e lançada em três línguas!
Suspeito que a estrutura de “Strange Crossroads” seja uma consequência
natural da musicalidade e do sentido da letra original em português e não foi
intencional. Um dos motivos é que parte da letra tem inspiração em dois grandes
poetas portugueses: Antero de Quental e Fernando Pessoa. Certamente isso foi
decisivo para a estrutura harmônica da versão original, não deixando de ter
influência direta quando fiz a versão para o inglês. Talvez por isso soe um
pouco inusitada, ainda mais na posição em que ela foi colocada na lista do
álbum, isso sim foi intencional (risos), entre duas canções originalmente
escritas em inglês (“Just for Today” e “Take Me Down”).
- 2025 ainda está rolando por aí. Quais os planos da
ORGANOCLORADOS para este ano vigente?
Bem, falta pouco mais de um mês e nesse momento o plano é
continuar na promoção e divulgação do álbum “Dreams and Falls”, utilizando o
maior número possível de ferramentas, com destaque para seu formato físico em compact
disc (CD) que chegou da fábrica no mês passado. Além de estar disponível ao
público para aquisição, também servirá como meio de apresentação a produtores,
curadores, rádios, sites e blogs, tudo isso no Brasil e no exterior.
Neste novembro vamos lançar um single em espanhol,
inaugurando um novo projeto que vem por aí e provavelmente vai trazer novidades
no próximo ano.
Seremos uma das bandas do Tour Rock Bahia Festival, um
grande evento de bandas de rock autoral que será realizado em Salvador. Para
fechar o ano, faremos um show especial em Alagoinhas.
Ressalto que em 2025 a Organoclorados completou 40 anos de
uma jornada incrível e toda a nossa movimentação tem essa marca como pano de
fundo principal.
- Parabéns novamente pelo trabalho de vocês, caras. Existiu
algum assunto importante que não foi citado aqui?
Obrigado e também parabenizo vocês pelo espaço
disponibilizado, pois é uma oportunidade do público conhecer um pouco mais
sobre nossa atividade musical, principalmente nesse momento da nossa história.
O segmento rock autoral independente/alternativo tem muitos
altos e baixos, sonhos e quedas, mas também nos traz muita satisfação porque
fazemos música com amor, paixão e o coração aberto. Queremos aprender mais a
cada dia e entregar aos fãs e seguidores um conteúdo autêntico, com valor
cultural e artístico, sem artificialismos ou truques de marketing.
Queremos muito que vocês sigam a Organoclorados nas redes
sociais e plataformas digitais de música, inscrevam-se em nosso canal no
YouTube.
Força sempre e boas energias direto da Bahia. Até a próxima!
@organoclorados